sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O belo nas chaleiras

O que os norte-americanos não conseguem compreender nos nossos jogos de futebol é a plasticidade estética que resulta da movimentação dos dois times, ao se alternarem nas funções de ataque e defesa. É bonito assistir a uma partida de futebol, especialmente quando bem jogada e de boa qualidade técnica, justamente pelo encanto visual que provoca o movimento rítmico dos jogadores dos dois times pelas dimensões do gramado, movimento esse pautado a partir dos deslocamentos da bola, esse objeto que todos sempre queremos ver balançando as redes da equipe adversária.
Por não compreenderem esse aspecto sutil e quase subjetivo do esporte, é que os norte-americanos, via de regra, bocejam e sofrem de tédio frente às partidas de futebol e não entendem como podemos vibrar e sairmos satisfeitos até mesmo de um confronto que, após 90 longos minutos, resulte em um empate de zero a zero. O americano quer resultado, resultado imediato e, de preferência, resultado abundante. Daí seu fascínio por esportes como o basquete, que em apenas uma partida o seu time do coração é capaz de fazer um escore superior a 100 pontos. “Isso sim, é emoção”, dizem eles.
Para espanto de alguns, eu consigo detectar essa plasticidade bela de movimentos técnicos até mesmo no boxe, esporte, aliás, de minha predileção (na condição de mero espectador, óbvio). Nada de UFC ou MMA, mas sim o velho, bom, técnico e leal boxe, com suas luvas, golpes somente com os punhos e acima da linha da cintura. Futuramente, no divã do analista, assim que decidir que devo procurar um, descobrirei que esse meu fascínio deriva de alguma necessidade de compensação mental das agruras do cotidiano por meio do voyeurismo à violência consentida e regrada desenrolada sobre um ringue. Vá lá, que seja. Enquanto isso, levanta a guarda, cara de calção amarelo!
Ultimamente, por culpa dos canais de tevê a cabo que trazem o mundo todo para dentro da sala da minha casa, dei de ficar viciado em assistir a partidas de curling, aquele bizarro jogo praticado por suecos, noruegueses e outros povos nevados, no qual utilizam chaleiras deslizantes como se jogassem bocha. Adoro! Sei todas as regras e torço que me vergo no sofá por finlandeses ou ucranianos de nomes esquisitos. Plasticidade, meu amigo. Tudo não passa de uma simples questão estética.

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de outubro de 2013)

Um comentário:

Unknown disse...

Marcos, maravilhoso teu texto sobre os brinquedos! Com certeza transportou os teus leitores para suas próprias experiências infantis, relembrando momentos inesquecíveis.
Grande abraço e continue nos brindando com tua linda literatura.
Iara