sexta-feira, 18 de maio de 2012

Além dos 140 caracteres


Fui alçado à categoria oficial de tio na última segunda-feira, dia 14, com a chegada de João Vitor, primogênito da irmã de minha esposa. A julgar pelo ritmo acelerado de desenvolvimento das crianças neste século 21, creio que não demorará mais do que alguns meses para que João Vitor esteja me chamando de tio. Será o máximo, especialmente porque ele se transformará na primeira pessoa do mundo que atribuirá a mim tal alcunha sem que nela esteja implícita uma metáfora para “e aí, seu velhinho?”, que é como a coisa me soa quando crianças e jovens se referem assim a mim pelas quebradas da existência desde que as cãs passaram a adornar o cimo de minhas orelhas há alguns pares de anos.
João Vitor, bem como seus companheiros de viagem Júlia, Théo e Alice, que desembarcaram na maternidade do Hospital Saúde vindos no mesmo voo de cegonha naquela manhã, já nasce plugado na internet. Com pouco mais de 24 horas de vida, já estava com sua foto (junto aos pais orgulhosos, felizes e acabados) postada no blog da maternidade e recebia as primeiras mensagens de boas-vindas com 140 caracteres via e-mail, de parentes e amigos cujas existências ele sequer desconfia. Um twitteiro nato, esse meu sobrinho. Nem sabe falar e já há coisas que terei de pedir para que ele me ensine, uma vez que o velho tio aqui demorou mais de 30 anos para receber e despachar seus primeiros e-mails.
Quando tiver a minha idade e assumir a sua vez no revezamento do encantar-se com a chegada das novas gerações na família, e se eu ainda estiver ocupando o lugar que me cabe ao sol, João Vitor contará com um tio ancião de 90 anos de idade. Não sei se nesse futuro distante (2057) ainda estaremos navegando em internet da maneira como hoje concebemos essa forma de comunicação, mas tenho certeza de que o maravilhamento com o inexplicável milagre da vida seguirá inabalado. Nem os meteorologistas são capazes de prever com exatidão se o João Vitor adulto viverá em uma sociedade que ainda manipulará livros físicos e se o sertanejo universitário ainda emplacará sucessos no rádio (“rádio, tio?”). O certo é que, desde que o mundo é mundo, existem coisas que não se reduzem e nem se explicam em 140 caracteres, e a mágica da geração da vida é uma delas. 
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 18 de maio de 2012)

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